Thursday, March 08, 2007




Entrou em serviço. Gostava imenso da vida no quartel e sentia-se realizada sabendo que podia ajudar outras pessoas, mesmo que isso implicasse não receber nada em troca.
A Corporação funcionava como uma pequena família.
Tocou a sirene.
Acidente multi-vítimas na 2ª circular.
Entrou no carro de desencarceramento com os seus companheiros de equipa e dirigiram-se ao local do sinistro.
Estava uma bonita noite d Inverno, mas a adrenalina era tanta, a velocidade a que vida da cidade passava por ela era tão grande, que não a deixava deleitar-se com o espectáculo que as luzes da cidade lhe poderiam proporcionar.
Chegou ao local do sinistro.
O cenário que se lhe deparou não era nada a que não estivesse habituada: choque entre duas viaturas, tendo a última ficado com a parte da frente desfeita, completamente enfiada na parte de trás da primeira.
Até aí tudo normal. Tinha desenvolvido uma capacidade d relativizar o sofrimento dos outros. Não se podia deixar abalar cada vez que assistia a um acidente, senão ninguém naquela equipa se mexia. Tinha sido essa capacidade que a tinha feito chegar a 2ª comandante.
Baixou-se e olhou para o interior da viatura. O espectáculo com que se deparou impediu-a d ter qualquer tipo d reacção.
O homem que amara durante nos estava ali, naquele carro…encarcerado…1 calafrio percorreu-lhe a nunca e desceu pela coluna perdendo-se algures no final da mesma. Os pés gelaram, as mãos transpiraram, o coração doeu e um fio de ar fugiu-lhe da garganta emitindo um som entre um guincho e um gemido.
Tinha um ferro a prender-lhe o braço esquerdo e a cabeça partida. Os cabelos castanhos lisos mantinham o mesmo corte e os olhos, apesar de inexpressivos, a mesma cor de mel.
Enquanto os colegas tratavam do outro carro, encarregou-se de o reanimar.
O processo de desencarceramento durou pouco mais de 20 minutos e, após o ter imobilizado, foi com ele na ambulância para o hospital.

Desceu novamente a avenida que percorrera tantas vezes.
Os seus passos ecoavam na calçada e a saia de cabedal rangia á medida k caminhava, lentamente, bamboleando as ancas.
O vento batia-lhe na cara afastando os seus cabelos negros, longos, ondulados, e deixando ver uma cara cansada e pesarosa, mas ainda assim bonita, misteriosa e sensual: lábios vermelhos, olhos pretos, rosto pálido, fatal, segura de si.
No entanto ninguém fazia ideia do quanto sofria, mas também não era isso que naquele caso importava (se é que algum dia tinha importado).
O que era primordial era a sua sobrevivência, sempre tinha sido…mas ele voltara na noite passada e tornara a assombrar o seu pensamento trazendo memórias que ela julgava esquecidas e, talvez mesmo, resolvidas.
Tudo tinha recomeçado, mas até quando? Ele voltaria? Ficaria com ela? Poderia tocar-lhe mais uma vez? Senti-lo outra vez? Beija-lo outra vez? Ou ficaria de novo sozinha, sem ele, sentindo-se usada, humilhada…sentindo-se vazia…
Talvez tivesse sido isso que a levara até ali.
Os outros homens não lhe interessavam…nunca tinham interessado. Sempre que estava com eles pensava apenas (e sempre) nele.
Tinha passado tanto tempo…mas ele seria sempre ele…o seu homem…o homem que amava.
- Boa noite miúda!
Um carro cinzento tinha parado ao seu lado.
Lá dentro estava um homem de meia idade.
- Boa noite.
- Queres entrar?
Abriu a porta ao lado do condutor e entrou.
De volta à podre realidade

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