Monday, April 23, 2007


Chegou de madrugada, após mais uma noite.
O dia tinha despertado límpido e frio e o tímido sol de Inverno esforçava-se por dar luz á cidade…uma luz branca e difusa.
No entanto tudo isso lhe era indiferente. Estava cansada e sabia que não deveria esperar nada de bom do seu dia.
Chegou a casa. Estava tudo desarrumado. Encontrou roupa interior feminina espalhada pelo chão descrevendo um trajecto ate ao quarto. Em cima da mesa e por toda a sala, restos daquilo que tinha sido uma noite de pura diversão e loucura.
Sentou-se no sofá, pegou numa garrafa de cerveja e bebeu.
Entrou na sala um homem vindo do quarto em tronco nu.
- Já cá estás?!
- Sim, não me estás a ver?!
- Fogo! ‘Tás com “neura”, tu!
- Olha lá, podes manda-la sair da cama ou vou ter que dormir no sofá!?
Sentou-se ao lado dela e pôs-lhe a mão nos ombros, envolvendo-a:
- Meu anjo…desculpa…tu sabes que só penso em ti, mas ás vezes é mais forte do que eu…eu adoro-te e tu fazes falta ao meu lado!
- Sim! Para te sustentar, enquanto tu tas com outras!
Nesse momento entrou na sala uma rapariga loira, de cabelo ondulado, magra, que vestia uma camisa de homem.
-Olá – disse ela.
-Olá. Arruma as tuas coisas e vai andando. – retorquiu-lhe o homem com desdém.
- Ontem á noite não querias nada disso! – disse ela com um arprovocatorio encarando o casal sentado no sofá.
- Mexe-te antes que eu me chateie! – respondeu-lhe ele
- Pronto! Pronto!
Pegou na roupa e saiu levando-a. Pouco depois ouviu-se a porta bater.
- Vou-me deitar. – disse ela
- Queres companhia?
- Não! Cheiras a sexo e ao perfume dela, dispenso!
- Quanto dinheiro fizeste?
- 330.
- A minha parte…
- Toma!
Foi-se deitar mas, apesar de cansada, não conseguiu dormir.
Pensava no que tinha acontecido há algumas noites…no seu passado…no seu presente…mas não no seu futuro.
Em tempos pensara nisso: um futuro brilhante, feliz, estável. Tinha tido projectos e tudo para os concretizar…mas ele tinha-se ido embora porque ela não prestava…!
Não prestava mesmo! E a prova disso era a vida que tinha, o sitio onde morava, as pessoas com quem se dava…
O que a teria levado aquilo? Porque não tinha tido forças para resistir e sobreviver?
Tinha seguido o caminho mais fácil; tinha-se tornado numa “máquina do amor”: sempre a dar, sem nunca receber e sem sentir…mas, ainda algo a fazia sentir…as memorias que ele lhe trazia e tudo o que ele representara, ao fim daquele tempo ainda chorava.
Num ímpeto, levantou-se e saiu do apartamento.
Subiu até ao 5º e ultimo andar.
Bateu à porta.
Ele abriu.
- O que se passa?
- Preciso de ti. Preciso de descansar…
- Passa-se alguma coisa lá em baixo? Estas bem?
- Sim. Só quero descansar.

Desviou-se e deixou-a passar.
Dirigiram-se logo ao quarto.
Ela deitou-se e ele tapou-a, sentando-se depois no fundo da cama.
- Precisas de alguma coisa?
- Companhia. Deita-te aqui.
Hesitou por momentos, mas sempre que via aqueles olhos suplicantes não podia e não queria resistir.
Deitou-se então e abraçou-a.
Pouco depois ouvia a sua respiração compassada e viu-a transformar-se numa menina serena, indefesa…aquilo que ela era de verdade e que só ele via.

Quando acordou, sentiu-se envolvida pelo seu abraço quente.
Coitado…Como é que ele podia estar apaixonado por ela? Não calculava como ia sofrer…
Gostava dele, era certo…mas era “apenas” um amigo. Esperava que ele estivesse sempre ali para ela.