Wednesday, March 21, 2007


Entrou em casa esgotada pelo que tinha vivido naquela noite.
Era já madrugada e a luz ténue e esbranquiçada do nevoeiro iluminava a sala dando-lhe um ar fantasmagórico.
Deixara-o no hospital depois de se ter certificado que ele se encontrava estável.
No entanto, a preocupação que sentia pelo estado em que ele se encontrava, não fora suficiente para a fazer esquecer tudo aquilo que passara por sua causa.
Sim! Amara-o. E então? Isso não o tinha feito ficar com ela.
Sentou-se no sofá e ficou a olhar as fotografias da época em que tinham estado juntos.
Dois anos juntos, Três anos sem pensar noutro homem que não fosse ele…enfim…Cinco anos preenchidos e vividos em função dele.
Desperdício de tempo? Não. Não se tinha arrependido. Tinha sido muito feliz. Mas a forma como ele se comportara, tudo o que ele a fizera sofrer depois de a deixar…isso sim, magoara-a.
O seu espírito foi, então, assaltado pelas memorias dolorosas do dia em que se vira obrigada a seguir em frente a sua vida por muito que lhe doesse e soubesse que nunca o iria deixar de amar.
Estava a passear com um das suas amigas nos jardins onde um dia o tinha beijado, onde tinham passeado, onde tinham vivido bonitos momentos, dos mais bonitos da sua vida.
Foi então que viu ao longe a imagem de um casal aos beijos. O indivíduo parecia-lhe familiar e conforme se aproximava deste os seus traços tornavam-se cada vez mais nítidos.
Pode finalmente distinguir com toda a precisão aquilo que preferia não ver. Era ele aos beijos com outra mulher. Ficou petrificada, colada ao chão. Sentiu aquela pontada característica que a afligia sempre nos momentos de maior ansiedade e lhe tirava o ar, provocando-lhe dores no peito.
Não sabia se sentia raiva, tristeza, desespero…não sabia de todo…talvez o choque tivesse sido de tal forma grande que não sentia de todo. Não lhe correram lágrimas pela cara, não soluçara, apenas ficara calada sentindo-se gelar.
Agora ali, sentada no sofá da sua sala, ao relembrar este seu passado, sentiu-se arrepiar como s alguém lhe sugasse o calor do peito ferrando-lhe lâminas geladas que lhe tiravam a vida.
Deixou-se gelar no sofá enquanto pegava no telemóvel e digitava um número.
Do outro lado da linha respondeu-lhe uma voz masculina.
- Olá! Há muito tempo que não dizias nada!
- Vem ter a minha casa.
- Estás-me a convidar para ir aí de madrugada?
- Se quiseres vir, vens. Mas não vou esperar muito!
- Ok. Daqui a uns minutos estou aí.
- Fico á espera.
Desligou o telefone.

Thursday, March 08, 2007


No final da noite, enquanto se dirigia á paragem de autocarro e a escuridão a engolia por completo, viu aproximar-se uma moto que brilhava á luz amarelada dos poucos candeeiros.
Nela vinha um homem vestido de preto que parou junto de si.
- Queres boleia? - disse numa voz grossa mas suave, pausada, olhando-a nos olhos que já não se encontravam tapados pela viseira. Uns olhos castanhos normais, mas doces e de certa forma inocentes.
- Cerrou a mão no interior do casaco onde transportava o seu bastão extensível.
- Porque haveria de querer? – perguntou em tom desconfiado.
- Porque é de noite e deves estar cansada.
Algo nele a fez baixar todas as suas defesas e deixar-se levar por aqueles olhos de criança.
- Tens capacete para mim?
- Tenho – disse estendendo a mão e apresentando-lhe um capacete preto.
Montou na mota e indicou-lhe o caminho até perto de casa mas sem o deixar saber onde era a sua morada.
- Deixa-me aqui se não te importas.
Tiraram ambos o capacete e ela pode ver-lhe a cara.
Condizia na prefeição com aquilo que os olhos deixaram adivinhar: proporcional, harmoniosa, enfim, um conjunto agradável e, aparentemente, inocente.
- Obrigado pela boleia.
- De nada. Se te voltar a ver dou-te outra.
- O que queres em troca?
- O que tu quiseres dar. Se quiseres dar alguma coisa.
Riu-se. Uma gargalhada seca. A mesma que costumava dar quando ouvia insinuações ou elogios por parte de outros homens…era sempre o mesmo…sempre os mesmos homens…
Inclinou-se e pôs-lhe os dedos no queixo pressionando-o levemente. Puxou-o para si e beijou-o.
Foi um beijo calmo, sem pressas, em suma, agradável.
Pela primeira vez em muito tempo sentiu-se arrepiar com aqueles lábios que lhe tiravam o folgo e todo o calor do corpo.
Sentiu os lábios frios, um frio vindo do peito que lhe percorrera todo o corpo para no fim se espalhar nos seios.
Quando pararam olho-o e achou-o lindo.
- Queres ir jantar comigo amanhã?
- Pode ser. Onde?
- Posso vir aqui buscar-te…
- Tudo bem, fica combinado.

Foram jantar no dia seguinte.
Ele levou-a a um restaurante agradável. Tiveram uma conversa casual:
- Qual é a tua profissão? - quis saber ele
Hesitou. Mas que raio de pergunta! Tinha que começar logo pela mais difícil?!
- Sou secretaria numa empresa.
- Qual?
- Mas que coisa! – pensou – Isto é algum interrogatório?! Lembrou-se então do emprego que um dia a sua mãe tivera e então optou por contar essa história.
- Bom, agora é a minha vez. Em que é que trabalhas?
- Sou polícia.
Bolas! Na boca do inimigo!
No final do jantar, ele convidou-a para ir a uma discoteca.
Seguiram pela 24 de Julho até ás Docas.
Há tanto tempo que não se divertia á noite.
Saiu do carro e ele pegou-lhe na mão para a ajudar.
O rio estava lindo: preto, como ela gostava, com umas luzes douradas e a ponte vermelha erguendo-se no meio do rio e conduzindo a visão ate ao Cristo Rei, lá no alto iluminado.
Entraram atraídos pelo som da música e da batida ritmada.
Assim que acabaram a primeira bebida, foram dançar.
Começou a rodar o corpo, ondulando as mãos e deixando-se levar pela música como se esta lhe puxa-se os membros e a tomasse por completo guiando-a como se de um homem se trata-se.
Sentiu os braços dele abraçarem-na pela cintura e apertarem-na de encontro ao seu corpo sentindo-lhe o calor e os músculos bem definidos.
Há muito tempo que não estava com um homem tão agradável.
Sentiu as mãos dele descerem até ás suas ancas e a balançarem-na de um lado para outro.
Sentiu depois um frio na barriga e umas mãos quentes percorrerem-lhe o ventre. A boca dele no seu pescoço, as mãos que depois já estavam nos seus ombros, a respiração nas suas orelhas, o cheiro agradável e quente que vinha dele…virou-se e não quis resistir.
Beijou-o desejando-o…desejando com aquele beijo tirar-lhe todo o calor e tê-lo no seu corpo sentindo-o de todas as formas com todo o seu ser.
Continuaram numa dança sensual até abandonarem o bar.
Sentaram-se no carro dele e foram para sua casa.
Entraram e sentaram-se no sofá.
- Espero k não penses que temos…
Pôs-lhe o indicador sobre os lábios em sinal de silêncio. – Eu sei. – murmurou ela - Eu não espero nada. Não te preocupes.
Pegou-lhe na mão e levou-a para o quarto deixando para trás a mala e os casacos.
A escuridão do quarto envolveu-os deixando ver apenas os seus vultos.
Sentou-se na cama e ele sentou-se atrás dela. Começou a beijar-lhe os ombros e ela pôde sentir o calor da sua respiração e as suas mãos nos seus braços.
Despiu-lhe a camisola e tirou-lhe o soutien. Puxou-a para si e apertou-a nos seus braços. Deitou-a…e as suas mãos deslizaram debaixo da saia dela e pela primeira vez desde há muito tempo ela pôde sentir paixão, vontade, desejo…e beijou-o.
Quando acabou respirou fundo e sentiu-se bem.
Olhou-a e viu uma miúda...muito mais nova do que aquelas com quem tinha estado até então.
Aqueles olhos pretos em forma de amêndoa, no entanto, não enganavam ninguém: tinham sofrido muito e deixavam transparecer toda essa dor, o que a fazia parecer frágil, inocente, e tudo isso lhe conferia ainda mais sensualidade e fazia-o desejá-la ainda mais.



Entrou em serviço. Gostava imenso da vida no quartel e sentia-se realizada sabendo que podia ajudar outras pessoas, mesmo que isso implicasse não receber nada em troca.
A Corporação funcionava como uma pequena família.
Tocou a sirene.
Acidente multi-vítimas na 2ª circular.
Entrou no carro de desencarceramento com os seus companheiros de equipa e dirigiram-se ao local do sinistro.
Estava uma bonita noite d Inverno, mas a adrenalina era tanta, a velocidade a que vida da cidade passava por ela era tão grande, que não a deixava deleitar-se com o espectáculo que as luzes da cidade lhe poderiam proporcionar.
Chegou ao local do sinistro.
O cenário que se lhe deparou não era nada a que não estivesse habituada: choque entre duas viaturas, tendo a última ficado com a parte da frente desfeita, completamente enfiada na parte de trás da primeira.
Até aí tudo normal. Tinha desenvolvido uma capacidade d relativizar o sofrimento dos outros. Não se podia deixar abalar cada vez que assistia a um acidente, senão ninguém naquela equipa se mexia. Tinha sido essa capacidade que a tinha feito chegar a 2ª comandante.
Baixou-se e olhou para o interior da viatura. O espectáculo com que se deparou impediu-a d ter qualquer tipo d reacção.
O homem que amara durante nos estava ali, naquele carro…encarcerado…1 calafrio percorreu-lhe a nunca e desceu pela coluna perdendo-se algures no final da mesma. Os pés gelaram, as mãos transpiraram, o coração doeu e um fio de ar fugiu-lhe da garganta emitindo um som entre um guincho e um gemido.
Tinha um ferro a prender-lhe o braço esquerdo e a cabeça partida. Os cabelos castanhos lisos mantinham o mesmo corte e os olhos, apesar de inexpressivos, a mesma cor de mel.
Enquanto os colegas tratavam do outro carro, encarregou-se de o reanimar.
O processo de desencarceramento durou pouco mais de 20 minutos e, após o ter imobilizado, foi com ele na ambulância para o hospital.

Desceu novamente a avenida que percorrera tantas vezes.
Os seus passos ecoavam na calçada e a saia de cabedal rangia á medida k caminhava, lentamente, bamboleando as ancas.
O vento batia-lhe na cara afastando os seus cabelos negros, longos, ondulados, e deixando ver uma cara cansada e pesarosa, mas ainda assim bonita, misteriosa e sensual: lábios vermelhos, olhos pretos, rosto pálido, fatal, segura de si.
No entanto ninguém fazia ideia do quanto sofria, mas também não era isso que naquele caso importava (se é que algum dia tinha importado).
O que era primordial era a sua sobrevivência, sempre tinha sido…mas ele voltara na noite passada e tornara a assombrar o seu pensamento trazendo memórias que ela julgava esquecidas e, talvez mesmo, resolvidas.
Tudo tinha recomeçado, mas até quando? Ele voltaria? Ficaria com ela? Poderia tocar-lhe mais uma vez? Senti-lo outra vez? Beija-lo outra vez? Ou ficaria de novo sozinha, sem ele, sentindo-se usada, humilhada…sentindo-se vazia…
Talvez tivesse sido isso que a levara até ali.
Os outros homens não lhe interessavam…nunca tinham interessado. Sempre que estava com eles pensava apenas (e sempre) nele.
Tinha passado tanto tempo…mas ele seria sempre ele…o seu homem…o homem que amava.
- Boa noite miúda!
Um carro cinzento tinha parado ao seu lado.
Lá dentro estava um homem de meia idade.
- Boa noite.
- Queres entrar?
Abriu a porta ao lado do condutor e entrou.
De volta à podre realidade